‘Cê nem parece autista’. O movimento anticapacitista na literatura de mulheres autistas
Resumo
As marginalizações do feminino pela história e cultura machista, bem como o determinismo biológico e a representação social estereotipada das mulheres com Transtorno do Espectro Autista demandam debate crítico para que possam ser (re)visitados pela comunidade médica e científica, por toda sociedade em geral, para uma desconstrução crítica e reparadora dos preceitos, preconceitos, discriminações, capacitismos e destinações subalternizadoras a que as mulheres com autismo foram sujeitadas desde a infância. No que diz respeito às mulheres com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista Nível 1 de Suporte (TEA N1), elas têm se destacado na luta do movimento anticapacitista sendo a literatura um terreno fértil de diálogo com a sociedade, uma vez que o hiperfoco em temas sociais dentre tantos outros assuntos, é ponte para uma escrita dinâmica, complexa e intensa. O propósito deste artigo é visitar a literatura de mulheres autistas que se configuram parte do movimento anticapacitista na sociedade contemporânea, destacando que o autismo também é uma questão de gênero tendo como base de discussão o referencial teórico feminista interseccional. Foram escolhidos três poemas das autoras brasileiras diagnosticadas com TEA N1 na idade adulta cujo hiperfoco se encontra na escrita poética: Letícia Mariana, Milena Moura e Jo Melo. Suas composições denotam o apreço pela arte de ler e escrever, criatividade, imaginação e criticidade, habilidades que suplantam as discriminações e depreciações do capacitismo.
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