Chamada Temática - A mulher na banalidade do quotidiano (uma homenagem a Lídia Jorge)
CHAMADA PARA DOSSIÊ TEMÁTICO
da revista Acta Scientiarum, Language and Culture
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Prazo: até 15 de abril de 2026
Tema: A mulher na banalidade do quotidiano (uma homenagem a Lídia Jorge)
Editores: Cândido Oliveira Martins, Nazaré Torrão e Mauro Dunder
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A partir dos anos 1980 no mundo das artes e da literatura há uma preocupação nova com o real e como este se traduz na vida de todos os dias, com grande diversificação das práticas artísticas que tomam como tema o quotidiano e/ou o comum, na sequência da tradição filosófica que se desenvolveu sobretudo entre o fim da segunda guerra mundial e o início dos anos 80 – tomemos como balizas Henri Lefebvre e Michel de Certeau (França) e John Dewey e Stanley Cavell (Estados Unidos da América), sem descurar todavia os autores de língua alemã que influenciaram algumas das teorias das outras correntes (Martin Heidegger, Walter Benjamin). Este interesse artístico é coincidente temporariamente com o surgimento da abordagem da história do quotidiano na Alemanha. Se a produção de trabalhos de historiografia, sociologia e outras ciências sociais seguiram essa nova orientação, os estudos literários só a partir do século XXI começaram a interessar-se sobre a representação do quotidiano, abrindo novas perspetivas de análise dos textos. Podemos considerar as recentes publicações Écrire le Quotidien Aujourd’hui (2024), obra coordenada por Corinne Grenouillet, Maryline Heck e Alison James ou Everyday Life: Theories And Practices from Surrealism to the Present de Michael Sheringham (2006) ou ainda o número 33 da revista Postures (2021) que tem como tema “Le partis pris de l’ordinaire”. No que diz respeito às artes, podemos considerar ainda a obra de Barbara Fourmis Esthétique de la vie ordinaire (2010). No que à filosofia diz respeito, podemos salientar a publicação de La découverte du quotidien de Bruce Bégout (2005).
Um dos primeiros desafios que se coloca a quem deseja debruçar-se sobre as representações literárias do quotidiano é a definição do conceito. Corinne Grenouillet, Maryline Heck e Alison James dizem-nos aliás que o quotidiano não é um conceito, mas uma noção que é preciso diferenciar de noções próximas, como o comum, o habitual, o banal, o insignificante ou o irrisório[1]. Os três últimos termos têm uma conotação negativa, o comum e o habitual são mais próximos e designam o curso normal das coisas. Para além disso o quotidiano comporta uma dimensão material, doméstica e estritamente repetitiva à qual o comum não tem que se sujeitar. O termo vem do latim “quotidie” (cada dia) e supõe uma recorrência, o que se repete todos os dias; enquanto o comum remete para o que está dentro da norma, conforme. A tradição francesa fala mais do “quotidiano”, a americana do “comum”. Emerson, filósofo americano (1802-1883), defende que o herói moderno é aquele que consegue tratar da sua casa e família (orçamento, limpeza, arrumação, alimentação, reposo) sem se deixar influenciar pelas intrusões exteriores da moda e das normas sociais que tentam impor, através das ideologias das técnicas e da economia, outras formas de viver o quotidiano que não correspondam forçosamente aos desejos do sujeito. Só esta forma de “moralidade concreta” em luta contra a expansão do conforto e da moleza poderia “civilizar uma civilização”[2]. Também na tradição europeia a maioria dos filósofos consideram que a sociedade capitalista e de consumo influencia negativamente o modo como os cidadãos vivem o quotidiano, sem contudo lhe retirar o valor de forma de resistência ou fuga à dúvida ontológica do sujeito e aos receios que esta inspira.
Será o romantismo que na literatura introduz esse interesse pela realidade de todos os dias. O romance é o género que ganha em importância com a sociedade burguesa: o facto de o quotidiano passar a ser associado ao privado, passa também a opor a ociosidade ao trabalho produtivo. A história é incluída nessas séries de oposições mentais que se criam. Existia uma “oposição trivial, baseada no senso comum, mas também no discurso cientítifco, que consist[ia] em contrapor quotidiano-banal-insignificante a histórico-original-significante”[3]. A estas associações, que vinham já da Idade Média, a sociedade burguesa acrescentou mais duas oposições: o quotidiano passou a ser visto como privado e o histórico como público, ao mesmo tempo que se passava a valorizar o trabalho produtivo e a desvalorizar o ócio. Estas novas categorias de oposição redefiniram também a hierarquia dos papéis sexuais na sociedade burguesa associando o espaço privado ao quotidiano e ao feminino e o espaço público ao histórico e ao masculino[4]. Charles Taylor, autor de The Sources of the Self (1989), chama a atenção para o facto de a afirmação da vida comum atenuar a importância do sagrado e valorizar a asserção do ponto de vista de primeira pessoa individual ligado a um corpo de experiências obtido através do processo de produção e reprodução – trabalho e casamento – estreitamente ligado ao papel dos sexos na sociedade.
Com este enquadramento teórico-conceptual e num propósito de originalidade, pareceu-nos pertinente aliar neste dossiê os dois temas – género e quotidiano; e, deste modo, pensar criticamente as suas representações literárias na obra de Lídia Jorge, como cartografia do contemporâneo e observatório privilegiado de um olhar renovado sobre a escrita literária desta autora atual. Assim, como eixos temáticos, entre outros possíveis que decorrem do ideário exposto antes, enumeram-se os seguintes:
- Contornos do quotidiano na escrita de Lídia Jorge
- Relações entre a Mulher e as vivências quotidianas
- Dimensões do trivial quotidiano na visão feminina
- Entre o espaço privado e o espaço público no feminino
- Valorização dos espaços urbanos e das periferias
- Experiências fenomenológicas, éticas e políticas da vivência quotidiana
- A Mulher, as formas trabalho e os momentos de ociosidade
- Paradoxo e ambivalência das formas de dizer o quotidiano
- Modos de fuga ao quotidiano (ordinário vs. extraordinário)
- Géneros literários da escrita de mulheres sobre o quotidiano
[1] Grenouillet, Corinne, Heck Maryline, James, Alison (dir.), Écrire le Quotidien Aujourd’hui, Rennes, La Licorne. Presses Universitaires de Rennes, 2024, p. 8.
[2] Bruce Bégout, La découverte du quotidien, Paris, Allia, 2005, p. 237.
[3] Lalive d’Epinay, Christian, “La vie quotidienne, essai de construction d’un concept sociologique et anthropologique, Cahiers internationaux de sociologie, vol. LXXIV, 1983, p. 14.
[4] Ibidem.







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