‘ENVOLVIDAS’: NARRATIVAS DE ADOLESCENTES SOBRE SUAS RELAÇÕES COM FACÇÕES CRIMINOSAS EM FORTALEZA
Resumo
O objetivo deste artigo é analisar narrativas de adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de privação de liberdade sobre seus envolvimentos em organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas, conhecidas popularmente como facções, no contexto de Fortaleza-CE. Trata-se de uma pesquisa qualitativa à luz do método da cartografia, operacionalizada a partir de entrevistas narrativas autobiográficas com 10 adolescentes a quem foi atribuído o cometimento de ato infracional análogo ao tráfico de drogas. Para análise dos dados, utilizamos aportes teóricos da Psicologia Social em seus diálogos com estudos interdisciplinares sobre violência, juventude e seus marcadores sociais. A seção de resultados e discussão traça as seguintes linhas de envolvimento das adolescentes com facções, as quais se sobressaíram nas narrativas: precarização desigual da vida como projeto político de marginalização das adolescências periféricas; capturas de modos de subjetivação associados ao imperativo de ‘viver intensamente’; segregação socioespacial e internalização do estereótipo da ‘perigosa’; efeitos da institucionalização no (re)enquadramento como ‘envolvidas’; objetificação de mulheres no sistema cisheteropatriarcal; e intersecção entre gênero, classe, raça, idade e local de moradia junto ao recrudescimento de processos de subalternização a partir do envolvimento em facções. A partir das análises, concluímos que o gênero, em suas interseccionalidades, é uma importante chave de análise dos efeitos psicossociais da violência nas trajetórias de vida de adolescentes privadas de liberdade e nas hierarquias internas de grupos criminosos que disputam mercados ilegais e territórios urbanos.
Downloads
Referências
Barros, J. P. P. Nunes, L. F., Sousa, I. S. & Cavalcante, C. O. B. (2019). Criminalização, extermínio e encarceramento: expressões necropolíticas no Ceará. Revista Psicologia Política, 19(46), pp.475-488. Recuperado de http://pepsic.bvsalud.org/pdf/rpp/v19n46/v19n46a08.pdf
Bittencourt, N. A. (2015). A biopolítica sobre a vida das mulheres e o controle jurídico brasileiro. Revista Gênero e Direito, 4(3), 225-245. Recuperado de https://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/ged/article/view/25963/14450
Butler, J. (2017). A vida psíquica do poder: teorias da sujeição. Belo Horizonte: Autêntica Editora.
Butler, J. (2019). Vida precária: os poderes do luto e da violência. Belo Horizonte: Autêntica Editora.
Borges, J. (2018). O que é encarceramento em massa? Belo Horizonte: Letramento; Justificando.
Cavalcante, L. F., Benício, L. F. S. & Souza, V. A. (2021). “Só sei que morrem todo dia”: efeitos da violência armada em cotidianos de periferias de Fortaleza a partir de relatos de moradores(as). In: Barros, J. P. P., Rodrigues, J. S. & Benício, L. F. S. (Orgs.). Violências, desigualdades e (re)existências: cartografias psicossociais (pp. 297-316). Fortaleza: Editora Expressão Gráfica Editora.
Coimbra, C. (2001). Operação Rio: o mito das classes perigosas. Rio de Janeiro: intertexto.
Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência. (2020). Nota técnica 02/2020: Violência institucional no Ceará mortes pela polícia crescem 439% em cinco anos. Recuperado de https://cadavidaimporta.com.br/wp-content/uploads/2020/09/2020-09-11-nota2.pdf
Guattari, F. & Deleuze, G. (1995). Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 1. Rio de Janeiro: Ed. 34.
Oliveira, C. (2001) Sobrevivendo no inferno: a violência juvenil na contemporaneidade. Porto Alegre: Sulina.
Mbembe, A. (2017). Políticas de inimizade. Lisboa: Antígona.
Passos, E., Kastrup, V. & Tedesco, S. (2014). Pistas do método da cartografia: a experiência da pesquisa e o plano comum vol. 2. Porto Alegre: Sulina.
Passos, E., Kastrup, V. & Escóssia, L. (2010). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina.
Rodrigues, J. S., Assis, P. M. & Leonardo, C. S. (2021). O dispositivo grupal como estratégia de apoio psicossocial e resistências: inter(in)venções com mulheres e mães de jovens assassinados ou encarcerados. In: Barros, J. P. P., Rodrigues, J. S. & Benício, L. F. S. (Orgs.). Violências, desigualdades e (re)existências: cartografias psicossociais. Fortaleza: Editora Expressão Gráfica Editora, pp. 361-380.
Rossi, A. & Passos, E. (2014). A análise institucional: revisão conceitual e nuances da pesquisa-intervenção no Brasil. Revista EPOS, Rio de Janeiro, 5(1), p. 156-181. Recuperado de http://professor.pucgoias.edu.br/SiteDocente/admin/arquivosUpload/17972/material/An%C3%A1lise%20Institucional%20no%20Brasil.pdf
Sales, M. (2005) (In)visibilidade perversa: adolescentes infratores como metáfora da violência. Tese de Doutorado, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.
Scisleski, A., Checa, M. E. P., Bruno, B. S., Galeano, G. B., Santos, S., & Vitta, A. L. (2017). A lei em conflito com os jovens: problematizando as políticas públicas. Revista Polis Psique, 7(2), 4-27. Recuperado de https://seer.ufrgs.br/PolisePsique/article/view/70477/0
Silva, R. N. (2008). Ética e paradigmas: desafios da psicologia social contemporânea. In: Ploner, K. S. et al., (Org.). Ética e paradigmas na psicologia social (pp. 39-45). Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais.
Sousa, M. J. S. S. (2019). As peculiaridades da violência no Ceará: aventuras e maneiras de fazer o crime. 159f. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil.
Sousa, I. S. Nunes, L. F. & Barros, J. P. P. (2020). Interseccionalidade, femi-geno-cídio e necropolítica: morte de mulheres nas dinâmicas da violência no Ceará. Psicologia Política, 20(48), 370-384. Recuperado de http://pepsic.bvsalud.org/pdf/rpp/v20n48/v20n48a09.pdf
Copyright (c) 2026 Psicologia em Estudo

This work is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.
As opiniões emitidas, são de exclusiva responsabilidade do(s) autor(es). Ao submeterem o manuscrito ao Conselho Editorial de Psicologia em Estudo, o(s) autor(es) assume(m) a responsabilidade de não ter previamente publicado ou submetido o mesmo manuscrito por outro periódico. Em caso de autoria múltipla, o manuscrito deve vir acompanhado de autorização assinada por todos os autores. Artigos aceitos para publicação passam a ser propriedade da revista, podendo ser remixados e reaproveitados conforme prevê a licença Creative Commons CC-BY.
The opinions expressed are the sole responsibility of the author (s). When submitting the manuscript to the Editorial Board of Study Psychology, the author (s) assumes responsibility for not having previously published or submitted the same manuscript by another journal. In case of multiple authorship, the manuscript must be accompanied by an authorization signed by all authors. Articles accepted for publication become the property of the journal, and can be remixed and reused as provided for in theby a license Creative Commons CC-BY.







