Chamada de artigos sobre "Mulheres, decolonialidade e cultura física"

2025-03-24

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Sob a coordenação das editoras convidadas Dra. Eliane Tortola (UFPR), Dr.a. Ábia França (UFBA) e Dra. Larissa Lara (UEM),  O Journal of Physical Education aceita submissões para o dossiê temático "Mulheres, decolonialidade e cultura física". 

A tendência em estudos que problematizam as opressões de gênero, notadamente envolvendo as mulheres em diversas manifestações da cultura física, tem ganhado relevância nos últimos anos e levantado uma preocupação crescente com a interseccionalidade de gênero, classe social, raça/etnia, corpo, saúde, esporte e colonialidade. Compreender como marcadores sociais de diferença e colonialidade se entrelaçam nas experiências de mulheres no contexto da cultura física é um esforço necessário para desconstruir padrões eurocêntricos de performance, saúde e beleza, bem como para questionar normas que marginalizam corpos diversos que se distanciam de padrões impostos socialmente. Conforme constata Rita Segato (2012), nas últimas décadas, houve aumento da crueldade contra corpos de mulheres, especialmente negras, indígenas e minorias que utilizam determinadas práticas corporais (capoeira, dança, ginástica, outras) para resistirem cultural e politicamente. A cultura física, nesse cenário, é vista como meio de empoderamento do corpo feminino que foi (e ainda é) historicamente controlado e objetificado por estruturas patriarcais e coloniais.

 

Segundo a ONU Mulheres − organização que publica relatórios acerca da situação das mulheres e políticas de gênero ao redor do mundo − mesmo passados 30 anos de realização da 4ª Conferência Mundial sobre Mulheres, ocorrida em Pequim, em 1995 (evento que tinha um projeto progressivo e amplamente endossado para os direitos das mulheres e meninas em todo o mundo), nenhum país ainda alcançou a igualdade de gênero. Apesar dos avanços conquistados em alguns países no que se refere às políticas que protegem os direitos das mulheres, a exemplo de leis contra a discriminação e a violência de gênero, no Canadá e na Nova Zelândia, e leis que visam coibir a violência contra a mulher, no Brasil (lei n. 11.340/2006 e lei n.14.994/2024), há muitas lutas a serem travadas cotidianamente. Ao mesmo tempo que observamos uma onda crescente de movimentos feministas que continuam a ganhar força em várias partes do mundo, em especial, na América Latina, como o Ni uma a menos, na Argentina, e a Marcha das Margaridas, no Brasil, notamos, na contramão: o avanço da extrema direita com a veiculação de narrativas que descrevem os movimentos pelos direitos das mulheres como ameaça aos valores familiares tradicionais; o crescimento do fundamentalismo religioso que violenta as mulheres pela restrição de direitos, de oportunidades e controle de seu corpo; a adoção de políticas discriminatórias para mobilizar bases eleitorais conservadoras; e o brutal desrespeito à vida decorrente da dominação masculina que vê a mulher como propriedade.

Estamos presenciando a implementação de leis por governos conservadores, que restringem os direitos das mulheres. Esses governos têm adotado políticas que limitam o acesso ao aborto, aos cuidados com a saúde (especialmente de pessoas transgênero), à participação em práticas esportivas, como ocorreu neste ano, por exemplo, nos Estados Unidos. Esses eventos refletem o impacto do processo de colonização nas estruturas de gênero e nos direitos das mulheres, em diversas regiões do mundo. Conforme lembra Maria Lugones (2014), a colonialidade de gênero ainda persiste, manifestando-se na intersecção dos construtos de gênero, classe e raça, que são centrais ao sistema de poder capitalista global. A luta pelos direitos das mulheres na sociedade hodierna é, em muitos aspectos, contra o legado do colonialismo e a favor da ressignificação justa e igualitária das relações de gênero em todos os âmbitos da vida.

O acesso democrático à cultura física − significativamente impactado pelo processo de colonização por meio do apagamento de práticas corporais tradicionais (danças, rituais, jogos, lutas, entre outras) e valorização de práticas esportivas europeias − representa um dos caminhos para se resistir à colonialidade do poder. Uma mudança desse cenário pode ocorrer por meio da educação e conscientização, da revalorização de práticas tradicionais, da promoção de inclusão e diversidade, bem como do desenvolvimento de infraestrutura acessível a diferentes pessoas. Esses esforços podem contribuir para criar um cenário justo e inclusivo para o acesso de mulheres à cultura física de modo a desafiar o legado colonial.

As reflexões propostas por esse dossiê objetivam impulsionar análises acerca de opressões de gênero, especialmente de mulheres marcadas por violências decorrentes da sociedade patriarcal modelada pela colonialidade. Esperamos receber artigos potentes, vibrantes, que contribuam para qualificar o debate acadêmico e proponham ações de intervenção por meio de projetos e perspectivas para a superação do estado de opressão e colonialidade que atravessa as mulheres. Nessa direção, encorajamos pesquisadores e pesquisadoras, de instituições brasileiras e internacionais, a somarem esforços acadêmicos na abordagem de temas diversos que tragam contribuições críticas acerca da interrelação mulheres, cultura física e práticas decoloniais.

Estimulamos o envio de contribuições que analisem como a relação das mulheres com seus corpos está intrinsecamente ligada à luta por territórios e à defesa de terras indígenas, quilombolas, ribeirinhas, comunidades ciganas, povos nômades, camponeses, povos originários de diversas regiões (como os aborígenes australianos, os maori da Nova Zelândia e os sami do norte da Europa), entre outros. Temas que abordem a crescente interconexão entre práticas decoloniais, feminismo e ecologia, com destaque para a relação corpo e meio ambiente e para a relevância das práticas corporais e do reconhecimento do corpo como espaço de resistência e transformação nas lutas políticas e ecológicas, são esperados pelo dossiê. Também são bem-vindas pesquisas que enfatizem a importância das práticas decoloniais para mulheres, com a valorização dos saberes tradicionais e indígenas acerca da saúde e bem-estar; análises críticas acerca da medicalização excessiva e da patologização dos corpos femininos; problematização de práticas generificadas que impõem padrões binários excludentes e reconfigurações a partir de um projeto decolonial; alternativas para a superação da dependência do norte global no âmbito da cultura física; perspectivas decoloniais e de respeito à diversidade de gênero nos currículos de educação física para a valorização de práticas não hegemônicas que promovam a inclusão de mulheres diversas. No que se refere ao espaço que as mulheres ocupam nas redes sociais, também encorajamos o envio de textos que analisem como as mulheres, especialmente as negras e as indígenas, são representadas (ou invisibilizadas) na mídia esportiva, propondo alternativas que celebrem a diversidade corporal e cultural. Temas que busquem entender como a internet e as redes sociais têm sido espaços importantes para a disseminação de práticas decoloniais e para a visibilidade de mulheres que desafiam padrões hegemônicos podem trazer contribuições singulares ao dossiê.

Em acréscimo, o dossiê prevê o recebimento de artigos que discutam a formação de profissionais conscientes acerca das questões de gênero e colonialidade, capacitados/as para atuar de forma inclusiva e crítica. Isso implica no reconhecimento das múltiplas feminilidades e na reflexão acerca da construção de outras formas de masculinidades, haja vista que a luta pela igualdade de gênero é uma responsabilidade compartilhada com o objetivo de descontruir as estruturas patriarcais. Aceitamos estudos que provoquem reflexões acerca de métodos de pesquisa que envolvam as comunidades estudadas, valorizando-se os saberes locais e as práticas colaborativas. Também aceitamos manuscritos que enfatizem as histórias de vida e as narrativas pessoais como meio de dar voz às experiências das mulheres. Acolhemos, ainda, investigações que analisem o impacto do cenário sociopolítico nas práticas corporais das mulheres, especialmente em contextos de diáspora (onde há fusão de tradições locais e influências globais). Incentivamos o envio de artigos oriundos de pesquisas que analisem como práticas decoloniais são adaptadas e ressignificadas em diferentes contextos culturais.

Em síntese, os seguintes temas orientam a organização do dossiê:

a) Opressão, colonialidade e resistência das mulheres: impactos da sociedade patriarcal e colonialidade sobre as mulheres; estratégias e perspectivas para a superação da opressão e da colonialidade na cultura física.

b)Representação e visibilidade das mulheres na mídia e redes sociais: (in)visibilidade das mulheres na mídia esportiva, especialmente negras e indígenas; redes sociais como espaços decoloniais e de resistência.

c) Formação profissional e crítica em gênero e decolonialidade: desenvolvimento de programas de capacitação e metodologias inclusivas e críticas sobre gênero e decolonialidade.

d) Métodos de pesquisa decoloniais voltados a mulheres: métodos de pesquisa participativos que potencializem o engajamento crítico de mulheres na superação da colonialidade de gênero e outras formas de opressão no âmbito da cultura física.

e) Decolonialidade e impacto sociopolítico na cultura física: interseções entre práticas decoloniais e contexto sociopolítico; autonomia das mulheres do sul global e superação da dependência do norte global na cultura física.

f) Relação entre corpos, territórios e ecologia: Relação entre corpos, territórios e ecologia: vínculo entre corpos de mulheres e luta territorial e ambiental; interseção entre decolonialidade, feminismo e ecologia; valorização de saberes tradicionais de mulheres de comunidades quilombolas, ribeirinhas, ciganas, nômades e povos originários na relação com o cuidado, a saúde e o bem-estar.

g)Crítica às normas hegemônicas e alternativas inclusivas: questionamento à medicalização e patologização dos corpos de mulheres cis ou trans; problematização de práticas generificadas e coloniais que impõem padrões binários e excludentes; promoção da diversidade de gênero e inclusão na educação física e cultura física.

h) A desconstrução da masculinidade hegemônica no contexto do movimento feminista: a participação de homens nos movimentos sociais, incluindo o feminismo, como aliados na promoção da igualdade de gênero e a importância de reconhecerem seus privilégios e trabalharem ativamente na desconstrução das hierarquias de gênero.

Esta chamada pode ser lida em espanhol aqui.